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terça-feira, 15 de setembro de 2009

A blica do menino Jesus



Toda a gente sabe o que é um menino Jesus. Mas nem toda a gente sabe o que é uma blica. Estou aqui hoje para vos tirar da ignorância e desvendar uma teoria da conspiração como nunca imaginaram! Aqui vai.

Uma blica é, numa das ilhas dos Açores que não sei precisar - perdão, sou continental, para mim são todas ao molho e fé em sei lá o quê -, um pirilau. Exactamente, algures em território do macho latino lusitano há quem se refira a um pénis pelo nome fofinho e pouco predador de... "blica." Siga.

Por alturas do Natal, é costume os ilhéus andarem de porta em porta a celebrar o nascimento do menino Jesus à boa maneira portuguesa: cravando vinho ao próximo! Assim, as pessoas vão de vizinho em vizinho, batem à porta e dizem a misteriosa senha ("Bom dia, o menino Jesus mija!"), ao que ao interlocutor cabe o papel de acenar e oferecer um copito de pinga ao indivíduo sedento.

Até aqui nada de mais, claro. Uma pessoa vai a casa de outrem, afirma que uma criança a quem muitos atribuem poderes divinos faz xixi (será por ser divina que nos espantamos que tenha necessidades fisiológicas?) e a resposta é encherem-nos de vinho... tudo normalíssimo.

Pergunto-me que raio de conspiração terrorista é esta e porque raio é uma tradição antiga! Quem raio se lembrou de comparar a urina de uma criança - com poderes mágicos ou não, não deixa de ser uma criança e duvido que tenha uvas em vez de rins - a vinho e como diabos é possível que as pessoas bebam desse néctar depois de falarem tantas vezes em xixi! Aqui vão algumas respostas possíveis:
  1. O padre da ilha, movido pelo Espírito Santo, resolveu castigar os bêbedos, obrigando-os a receber a bela pinga só depois da humilhação de a referir como excreções renais;

  2. O padre da ilha, movido por Satã, resolveu dar a entender que a blica do menino Jesus era diferente das outras, para causar temor entre os locais, mas a coisa não funcionou e toda a gente achou que era bestial terem uma criança com poderes tão bebíveis;

  3. Foi uma manobra de marketing por parte dos fabricantes de fontes de pedra de querubins e dos vinhos Cooperativa Vinho Regional dos Açores;

  4. Os açorianos vivem numa latitude que interfere com o seu bom julgamento na época natalícia - o famoso anticiclone?

  5. Não me ocorre mais nada. Venha um açoriano e me atire uma pedra ou dê uma sugestão!

Assim sendo, não admira que haja açorianos de bom senso que neguem esta tradição e tentem fazer ver a luz aos procuradores de xixi tinto. Aqui vai uma conversa breve que se deu na ilha de Santa Maria:

- Ah, senhora, o menino Jesus mija! - e estende o copo.

- Não mija, não, que tem a blica atada! - e fecha a porta.

Mai nada.

4 comentários:

bluebird65 disse...

Pois... apesar de açoriana, também só posso contribuir para mais umas teorias. Ocorre-me que, com as influências flamengas na colonização das nossas ilhas, alguém se tenha lembrado do Manneken pis, mas recorrendo a uma forma mais prática - basta ir à porta do lado pedir a pinga, em vez de correr a ilha toda para chegar a ela. Assim, como a necessidade aguça o engenho, quem sabe se o anticiclone dos Açores não o aguça mais ainda?
A hipótese de haver um padre metido ao barulho também me parece bastante credível...
Mas tenho de acrescentar que também os/as vizinhos/as fazem o convite: "Passa em minha casa porque o meu menino Jesus mija."

Leonor disse...

"Passa em minha casa porque o meu menino Jesus mija"?! Quais as hipóteses de eu pedir a um amigo para dizer isso aqui em Lisboa a uma rapariga e vê-lo a levar um estaladão? :D

bluebird65 disse...

Hummm... Em Lisboa? Devem ser grandes. Falta-lhes o anticiclone para lhes arejar as ideias! :D

Leonor disse...

Bolas, pois é. Tenho que escolher um amigo assim para o burro, então.