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segunda-feira, 19 de setembro de 2005

Esquadrão Adopção


Ontem tive uma noite metaleira: fui a uma festa de lançamento do álbum Nigrium Nigrius Nigro dos In Tha Umbra (http://www.pentagramma.net). Foi um serão bastante interessante, mas que me lembrou que começo a estar velha para estas andanças de alterar horários nocturnos de um dia para outro...
Mas o tema de hoje não é a festa, mas sim algo que foi abordado na mesma, por uma jovem que, espero eu, não tenha mais que 18 anos (o que me permitiria justificar a atitude com um suspiro e um "ainda não tem a maturidade suficiente para pensar mais profundamente," qual sábia anciã). A rapariga estava a comentar um programa que está a dar que falar, o Esquadrão G. Pois bem, a opinião dela era que hoje em dia, estava na moda ser gay. Por outras palavras, ser homossexual era algo que as pessoas escolhiam, como quem escolhe vestir de preto, ter um Rover ou cabelo azul.
Este primeiro comentário fez-me logo disparar de modo negativo a paciência, mas resolvi respirar fundo e concentrar-me na interessantíssima mancha de humidade que havia ali numa parede. A afirmação desta rapariga, por mais absurda que fosse, não foi a única pérola de sabedoria debitada. Minutos depois, estando eu embrenhadíssima na mancha a la Picasso, oiço, para infelicidade minha, mais uma frase inspirada: "Ah, e agora querem adoptar crianças! Por amor de Deus, isso é ridículo! Então imaginem um puto a ir para a escola e dizer que o pai se chama Manuel e a mãe Joaquim..."
Bem, quem me conhece sabe que eu não possuo a virtude da paciência infinita, pelo que não resisti e, contrariando tudo o que tinha prometido a mim mesma, retorqui: "Pois, mas sabes que aqui há uns anos atrás ser mãe solteira era uma aberração e motivo de vergonha, as crianças eram gozadas na escola, e agora isso é algo perfeitamente natural... As mudanças têm que começar de algum lado..."
A rapariga piscou os olhos e, não gostando dos comentários de concordância dos seus amigos, resolveu reformular o seu manifesto e dizer que, se adoptassem, ao menos que fossem as crianças mais velhas.
Confesso que não percebi a explicação para esta nova convicção, mas quando eu estava dividida entre voltar à simpática mancha ou averiguar melhor o que acabara de ser dito, alguém perguntou à nossa oradora principal se ela não achava que era preferível uma criança ser adoptada por um casal "diferente" do que passar a infância toda num orfanato, ao que eu, já decidida a odiar-me por entrar nesta conversa, anuí com a cabeça.
O tema acabou por mudar e eu calei-me. Confesso que achei que não me interessava muito estar num local com música aos berros a ter conversas profundas.
O que me veio à cabeça, horas depois, foi o facto de a rapariga basear a sua discordância em relação a uma criança viver com homossexuais com a crença de que essa criança iria ser infeliz por ser gozada na escola. Ora bem, quem teve infância e andou na escola sabe perfeitamente que os miúdos são cruéis quando querem e arranjam qualquer coisa para gozarem com os outros: ter orelhas grandes, pés tortos, duas mães. Eu pergunto então, para protegermos essas crianças, segundo esta rapariga, não deveríamos, então, cortar as orelhas de um puto, obrigar o outro a andar direito, tirar uma mãe? É ridículo. Simplesmente, não podemos proteger os meninos e meninas das crueldades da vida. E será que queremos? Não é um facto mais que publicado na literatura da Psicologia do Desenvolvimento que as crianças com baixa tolerância à frustração dão adultos mal adaptados, por vezes violentos, muitas vezes revoltados? Vamos ter frustrações na vida e o papel de um pai é preparar um filho para isso, não colocá-lo numa redoma e esperar que esta nunca rebente...
Em vez de esta rapariga dizer que é mau um homossexual adoptar uma criança, que diga antes que devemos começar a educar as pessoas e ensinar-lhes que a diferença não é necessariamente demoníaca nem preversa. Quantas crianças não vivem hoje em Portugal com duas mães e dois pais, que se adaptaram perfeitamente e não são gozadas na escola? Lembro-me pelo menos de uma, que li algures aqui há uns anos: a filha da companheira da cantora Dina, que vive com ambas. Uma excepção? Talvez, mas tem que começar de algum lado...
Vamos preparar as pessoas. Vamos desmitificar crenças erróneas e vamos, sobretudo, sensibilizar todos que, mais do que proteger uma criança de ser gozada na escola, devemos protegê-la de males bem maiores: a ausência de um lar, a falta de carinho de um adulto que a guie e, sobretudo, da falta de tolerância e amor.

4 comentários:

Anónimo disse...

Como prometido, passei a minha vista pela tua reflexão. Não é um tema em que me ache entendido, mas sem duvida que partilho a tua opinião. Tolerância, compreensão, igualdade, fraternidade, são valores que esta sociedade teima em não aceitar como seus! Acho que deves continuar a expressar as tuas opiniões, cá estarei para ler, concordar ou discordar.

Elsa disse...

Subscrevo inteiramente o ponte de vista da adopção como alternativa aos orfanatos e casas pias... a forma como se ama e educa uma criança nada tem a ver com quem se dorme na cama... será tão complicado de perceber?

bixana disse...

Ora aqui está algo em que as pessoas deviam pensar melhor! Um bom texto com boas opiniões, Leonor, continua.

Hecep disse...

Pois eu tb sou para o liberal nessas coisas mas vivo rodeada de homofóbicos que me atacam qd exprimo as minhas opiniões acerca de tais assuntos. Mais vale tar calada.

Nada a propósito: Fiquei sempre a pensar se a viagem para Braga te tinha corrido bem, devia ter insistido mais para ficares talvez. Como não tinha o teu n.º não liguei.